Maria Ivone Vairinho e Poetas Amigos

Maio 30 2010

Ary dos Santos é o meu poeta de eleição, a fonte onde mato muita da minha sede poética! Não podia, pois, deixar escapar esta oportunidade proposta pela APP de homenagear este grande poeta. O meu problema era como fazê-lo! Limitar-me a declamar um ou outro poema seu não me pareceu a melhor ideia por não ser grande declamador. Escrever sobre a pessoa e sobre o poeta, de certo que pouco acrescentaria a tudo quanto de positivo já foi escrito por outros com mais aptidões do que eu para o fazer.
Pensei, então, que a melhor maneira de lhe prestar a minha homenagem seria recorrer às suas próprias palavras; aos versos utilizados em muitos dos seus poemas como nocturno, estigma, soneto, morte e transfiguração, Kirie, o coco entre outros, ecom eles ousar compor este poema:

 

Era uma vez um poeta

 

Era uma vez um poeta
filho dum deus selvagem e secreto

que caminhou por cidades, por nuvens e deserto
como se fosse noite e nos atirasse
cordas de músculos  e rosas.
Um poeta que foi
arabesco triunfal dum arcanjo que passou
rasto vitorioso dum condenado que dançou
rindo dos deuses que o julgaram.

 

Era uma vez um poeta que dizia:
Antes sofrer a raiva e o sarcasmo
antes o olhar que peca, a mão que rouba
o gesto que estrangula a voz que grita.
Antes viver do que morrer no pasmo
do nada que nos surge e nos devora
mas poeta castrado não!

 

Era uma vez um poeta
que percorreu países esquecendo palavras
que atravessou rios desprezando leis
e pairou nas alturas de costas voltadas
aos séculos de pasmo que para trás deixou
e hoje dorme sepultado
de olhos abertos e dedos gelados
que puxam pela noite
e descobrem alas de anjos mutilados.

 

Era uma vez um poeta
que levantou, ao vento, essa voz que eu não tenho.
Que impôs a Deus a obrigação de o escutar no vento
e entender o que dizia e sonhava.
Que atravessou descalço a planície vermelha
em nome dos que choram
dos que sofrem
dos que acendem na noite o facho da revolta
e que de noite morrem
numa cama de chuva com lençois de vento
com a esperança nos olhos e arames em volta

Era uma vez um poeta que dizia:
há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.
Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão
porque todo o talentoso que não for tendencioso
todo o génio que não for neo-agro-pecuário
é um coco no caco dum vadio tinhoso
que não sabe ser poeta estetossolidário.
A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há ruas de sons que a palavra não cobra
à procura da sombra duma luz que não há.

 

Era uma vez um poeta esclarecido que dizia:
Aqui ao pé do vento forjamos o lamento
dum país que se vende a peso nos prospectos...
tanto de sol ardente, tanto de cal fervente
e nódoas de céu nos xailes pretos.

 

Era uma vez um poeta original
que amava a carne das palavras
sua humana e pastosa consistência
seu prepúcio sonoro sua erecta presença
e com elas violentava o cerne do silêncio.


Um poeta que se originou a si mesmo
porque original é o poeta
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo.
O que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.

Era uma vez um poeta, um poeta maior
que em nome de muitos braços
em nome de muitas mãos.
que em nome da liberdade
vinda nos ventos de Abril
que em nome de tantos génios
com a voz amordaçada
e em nome dessa vontade
de ser-mos todos iguais
Gritou...
Aqui não passam mais!


Pela certeza que dá
o ferro que malha a dor.
Pelo aço da palavra
fúria, fogo, força, flor...
por ser-mos nós a cantar
e a lutar em português
passaremos a palavra
passaremos adiante
e em nome da nossa frente
e dos nossos ideais
diante de toda a gente
contigo gritaremos:
Aqui não passam mais!

 

Abgalvão

 

 

publicado por palavrasaladas às 23:19
editado por appoetas em 28/05/2011 às 17:06

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